Poder absoluto

Resolvi escrever um livro, André.
Não deve ser difícil publicá-lo. Será um livro dedicado a você. Vou colocar nele tudo, absolutamente TUDO o que tenho vontade de te falar e você não pode escutar por causa da sua namorada.
Pois agora vai escutar! Porque o livro há de ser um sucesso, Deus vai me ajudar! E vai ser muito chato, chatíssimo, vai ser chatééééééérrimo a pessoa a quem o livro está endereçado ser a única língua portuguesa a não ter lido esse livro.
Já pensou? Seus amigos, sua família... “Andrezinho, você não leu o livro que aquela menina te escreveu? Não?! Não acredito...” Ai, que delícia. Vou escrever tu-do. Vai ser como se você estivesse delicadamente amarrado numa cadeira e eu ali, falando as coisas que sempre quis te falar, saboreando, me de-li-ci-na-do com a sua encantadora e espontânea atenção em tudo o que vou falando. Ai que maravilha!
LÁ VAI!
Vai se chamar “Carta a um amor que não posso ter”. Não. “Falta de amor”. Horrível. “Desespero de uma adolescente apaixonada”. Ah, deixo o título pra depois.
Nem acredito que, depois de publicado, vocezinho vai sentir-se obrigado a ler. O livrinho ali, todo editadinho...
Bom, agora posso respirar em paz e agüentar todas as suas fotos com sua namorada no orkit. Tenho minha vingança secreta, meu livro! Ah, que liberdade, que poder! Poder absoluto sobre a palavra e sobre e sobre vocezinho! Tanta coisa pra escrever, um livro tem tantas páginas, tanta coisa pra te falar, meu amor, que nem sei por onde começar.
Bom, vou começar pelo começo mesmo, mas por hoje é só, não tenho vontade de lhe comunicar mais nada! Passar bem!

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